Belial
Belial é o 68º dos 72 espíritos catalogados na Ars Goetia, a primeira seção do Lemegeton. É descrito com o título de Rei. Entre os 72 nomes do catálogo, Belial se destaca por possuir a história textual independente mais extensa e mais antiga, documentada em fontes que antecedem a Ars Goetia em mais de um milênio.
Última revisão: 2026-07-20
Fato histórico
O nome Belial carrega a história textual mais extensa e mais documentada entre todos os nomes do catálogo da Ars Goetia, antecedendo a compilação do grimório em bem mais de mil anos. Em hebraico, a expressão 'beli ya'al' funcionava originalmente como um substantivo comum, com o sentido aproximado de 'inutilidade' ou 'sem valor', antes de ser personificada como nome próprio na literatura judaica do final do período do Segundo Templo. Belial figura de forma proeminente nos Manuscritos do Mar Morto encontrados em Qumran — notadamente no Rolo da Guerra (1QM), onde é nomeado como líder das forças das trevas opostas aos 'Filhos da Luz'. O nome também aparece em outras obras apócrifas e pseudepígrafas, incluindo o Testamento dos Doze Patriarcas e a Ascensão de Isaías, geralmente como uma personificação maior da maldade ou uma figura espiritual adversária. Essa presença textual se estende ao Novo Testamento: em 2 Coríntios 6:15, o apóstolo Paulo pergunta retoricamente 'que harmonia há entre Cristo e Belial?', usando o nome como sinônimo do diabo ou da maldade suprema. Na edição de Mathers (1904) da Ars Goetia, Belial é descrito aparecendo sob a forma de dois belos anjos sentados em uma carruagem de fogo, falando com voz agradável, e declarando — segundo a própria narrativa do texto — que caiu de entre as fileiras angelicais mais dignas, existentes antes de Miguel e dos demais anjos celestiais.
Interpretação — Tradição Salomônica (Mathers/Crowley, 1904)
Na edição de Mathers, publicada com comentários de Aleister Crowley, Belial ocupa a 68ª posição do catálogo e é descrito como Rei, poderoso e terrível, comandando 80 legiões de espíritos segundo o texto. O manuscrito afirma que ele foi criado logo após Lúcifer, e é listado com o atributo de distribuir preferências — cargos, favores e a boa vontade de amigos — a quem ele governa, conforme a própria descrição documental do texto.
Interpretação — Tradição de Dr. Rudd (manuscrito, c. 1650)
O manuscrito atribuído a Thomas Rudd, anterior à edição de Mathers em cerca de dois séculos e meio, documenta uma versão relacionada mas distinta do catálogo — nele, cada um dos 72 espíritos, incluindo Belial, é emparelhado com um anjo correspondente extraído do sistema cabalístico do Shem HaMephorash (72 nomes divinos), um elemento estrutural de restrição/governo ausente na edição de Mathers. Não há registro confiável de qual nome específico de anjo o manuscrito de Rudd atribui a Belial nas fontes consultadas para este verbete; a prática geral de emparelhamento é documentada por pesquisadores como Joseph Peterson.
Interpretação — Tradição Luciferiana (interpretação moderna)
Autores luciferianos modernos, sobretudo Michael W. Ford (em obras como The Luciferian Goetia), reformulam os 72 espíritos da Ars Goetia como máscaras arquetípicas da própria consciência do praticante, em vez de potências externas subordinadas a uma autoridade divina superior — o modelo salomônico. O caso de Belial tem peso particular nessa leitura justamente por sua profunda história textual pré-Goetia: séculos antes de ser catalogado como o 68º espírito, 'beli ya'al' já era, em hebraico, uma expressão para a inutilidade, e, no Rolo da Guerra da comunidade de Qumran, havia se tornado a personificação líder de toda uma ordem de ser oposta, contraposta aos 'Filhos da Luz'. Autores luciferianos que revisitam essa linhagem — de modo semelhante ao tratamento dado ao eco de Baal em Bael ou ao eco de Astarte em Astaroth — leem esse antigo papel adversário não como o mal objetivo, mas como registro de como a autoridade sancionada há muito rotula como inútil ou sombrio tudo aquilo que rejeita. Nessa chave, a própria afirmação do manuscrito de que Belial caiu de entre as fileiras angelicais existentes antes de Miguel é reinterpretada como o arquétipo de uma soberania anterior e resistente à subordinação a qualquer hierarquia imposta, e seu ofício de distribuir preferências é lido como a capacidade de autoatribuir valor — determinar o próprio mérito, em vez de recebê-lo de um favor externo.
Esta seção apresenta a interpretação de uma tradição específica, não um fato verificável.
Perguntas frequentes
- Por que Belial é considerado o nome com a história textual mais significativa entre os 72 espíritos da Ars Goetia?
- Diferente da maioria dos nomes do catálogo, Belial não é apenas um título reaproveitado de uma divindade antiga (como ocorre com Bael/Baal ou Astaroth/Astarte) — é uma figura personificada e extensamente documentada em fontes judaicas e cristãs que antecedem a Ars Goetia em mais de um milênio, incluindo os Manuscritos do Mar Morto (onde lidera as forças das trevas no Rolo da Guerra), o Testamento dos Doze Patriarcas e o Novo Testamento (2 Coríntios 6:15). Essa continuidade textual direta e prolongada é o caso mais significativo desse tipo em todo o catálogo.
- O que a edição de Mathers atribui a Belial em termos de aparência e posição?
- Segundo o texto, Belial aparece sob a forma de dois belos anjos em uma carruagem de fogo, fala com voz agradável, ocupa o título de Rei, comanda 80 legiões, e o manuscrito afirma que foi criado logo após Lúcifer, distribuindo preferências e favores a quem ele governa.
- A leitura luciferiana de Belial é tão antiga quanto as tradições de Mathers e Rudd?
- Não. É uma interpretação moderna, desenvolvida principalmente a partir dos anos 2000 por autores luciferianos como Michael W. Ford, que reformulam os espíritos da Ars Goetia como arquétipos psicológicos de autodesenvolvimento — uma leitura simbólica contemporânea, não um manuscrito histórico como os de Mathers ou Rudd.
Fontes
- S. L. MacGregor Mathers (trans.), Aleister Crowley (ed.). The Goetia: The Lesser Key of Solomon the King (1904).
- Joseph H. Peterson (ed.). The Lesser Key of Solomon (2001).
- Thomas Rudd (manuscript), ed. Adam McLean. Dr. Rudd's Treatise on Angel Magic (c. 1650 (2007 ed.)).
- Michael W. Ford. The Luciferian Goetia (2007).