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O Mago

O Mago é a segunda carta dos Arcanos Maiores, numerada I. Nos baralhos italianos mais antigos era chamado Il Bagatto — um artista de rua ou vigarista com ferramentas sobre uma mesa, não o feiticeiro cerimonial que a tradição esotérica posterior retrata.

Última revisão: 2026-07-21

Fato histórico

Nos baralhos italianos do século XV, esta carta era Il Bagatto ('o pequeno', ou malabarista/vigarista de rua), mostrado com objetos simples de seu ofício sobre uma mesa — não um mago cerimonial. A reinterpretação como figura de poder oculto, manipulando os quatro elementos, é produto da leitura esotérica francesa e inglesa dos séculos XVIII-XIX, não da imagem original.

InterpretaçãoRider-Waite-Smith / Golden Dawn

Na versão de 1909, O Mago está diante de uma mesa com os quatro símbolos dos naipes (copa, espada, bastão, pentáculo), um braço apontando para o céu e outro para a terra. Representa manifestação, vontade direcionada, habilidade e o uso consciente dos recursos disponíveis.

InterpretaçãoThoth (Aleister Crowley)

No Thoth, a carta é chamada 'O Mago' e associada a Mercúrio e à letra hebraica Bet. Representa a comunicação, o intelecto e o elo entre o mundo espiritual e o material — o mensageiro que transforma ideia em forma.

Curiosidades

  • O símbolo de infinito (lemniscata) sobre a cabeça do Mago na versão Rider-Waite-Smith não existe nos baralhos de Marselha mais antigos, onde a figura usa apenas um chapéu de aba larga — a lemniscata é um acréscimo esotérico do início do século XX.
  • A etimologia de 'Bagatto' é debatida entre historiadores do Tarot: uma hipótese comum liga o nome a 'bagatella' (bugiganga, coisa sem importância), reforçando o status social baixo do personagem original como artista de rua, não figura de poder.
  • A associação do Mago com Mercúrio no sistema Thoth ecoa uma característica muito mais antiga e recorrente na mitologia comparada: a figura do mensageiro-trapaceiro (trickster) que transita entre mundos, presente também em Hermes grego e no Loki nórdico.

Para pesquisadores

Historiadores da arte do Tarot, ao comparar exemplares de Marselha com a versão Rider-Waite-Smith, notam um padrão recorrente: símbolos esotéricos que hoje parecem 'óbvios' na iconografia da carta — como a lemniscata do Mago — são acréscimos datáveis do movimento oculto inglês do início do século XX (Golden Dawn), não elementos presentes desde a origem italiana do baralho. Esse padrão de retroprojeção — ler significados esotéricos elaborados de volta para dentro de imagens seculares mais antigas — é discutido por Michael Dummett como um dos principais mecanismos pelos quais o Tarot ganhou sua reputação de sabedoria ancestral, apesar de sua origem documentada ser um jogo de cartas renascentista sem relação com ocultismo.

Esta seção apresenta a interpretação de uma tradição específica, não um fato verificável.

Perguntas frequentes

O Mago sempre foi um feiticeiro nas cartas?
Não. Originalmente era Il Bagatto, um artista de rua ou pequeno vigarista — a leitura como mago cerimonial é uma reinterpretação esotérica posterior, dos séculos XVIII-XIX.
O que os quatro objetos sobre a mesa representam?
Na versão Rider-Waite, copa, espada, bastão e pentáculo representam os quatro naipes dos Arcanos Menores e, por extensão, os quatro elementos clássicos — água, ar, fogo e terra.
O símbolo de infinito sobre a cabeça do Mago é antigo?
Não. É um acréscimo do baralho Rider-Waite-Smith de 1909. Baralhos de Marselha mais antigos mostram a mesma figura usando apenas um chapéu de aba larga, sem qualquer símbolo de infinito.

Fontes

  1. Michael Dummett. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City (1980).
  2. Arthur Edward Waite. The Pictorial Key to the Tarot (1910).
  3. Aleister Crowley. The Book of Thoth (1944).
  4. Stuart R. Kaplan. The Encyclopedia of Tarot (1978).