Nanã
Nanã (Nàná Bùkúù) é a orixá associada ao barro, às águas paradas e pantanosas — diferente das águas correntes de Oxum ou do mar de Iemanjá — e à morte compreendida como passagem natural e no tempo certo para o mundo ancestral, não como morte violenta ou prematura. É tida, em diversas nações de Candomblé, como a mais velha entre os orixás cultuados.
Última revisão: 2026-07-19
Fato histórico
Ao contrário da maioria dos orixás amplamente cultuados no Brasil, as raízes religiosas de Nanã não estão na tradição iorubá, mas na tradição fon/dahomeana do antigo Reino do Daomé (atual Benin). Nessa tradição, Nana Buluku é compreendida como uma figura criadora primordial e mais velha, anterior e geradora do par divino Mawu-Lisa. Essa herança chegou ao Brasil especificamente através da nação Jeje do Candomblé — distinta da nação Ketu, de matriz mais iorubá —, refletindo os diferentes grupos etnolinguísticos da África Ocidental trazidos pelos africanos escravizados. A mitologia registrada por Reginaldo Prandi por vezes descreve Nanã como figura materna primordial da qual descenderiam outras orixás das águas, como Iemanjá e Oxum, e em alguns itans como mãe de Oxalá e/ou de Omolu/Obaluaiê — ligando simbolicamente o barro tanto à criação quanto à morte e à doença. No Brasil, foi sincretizada com Sant'Ana, avó de Jesus na tradição católica — uma correspondência apropriada para seu papel de anciã/avoa. Sua cor é o branco ou o lilás.
Interpretação — Candomblé (tradição afro-brasileira)
No Candomblé, Nanã é saudada como a mais velha das orixás, ligada ao barro primordial de onde a vida humana teria sido moldada e para onde o corpo retorna após a morte. É associada a uma velhice serena e à autoridade que vem da idade avançada — seus filhos de santo costumam ter temperamento reservado, sério e ligado à introspecção. É tratada com grande respeito cerimonial, e sua morte associada não é temida como tragédia, mas compreendida como parte natural do ciclo da vida, distinta da morte súbita ou violenta associada a outras entidades.
Interpretação — Tradição Jeje/Fon (Benin)
Na tradição religiosa fon do antigo Reino do Daomé, Nana Buluku ocupa um lugar cosmológico ainda mais elevado do que no Candomblé brasileiro: é descrita como divindade criadora primordial e andrógina, anterior à própria criação do par Mawu (lua) e Lisa (sol), que dela teriam se originado. Essa centralidade na cosmogonia fon é distinta do papel de orixá das águas paradas que Nanã assume predominantemente no panteão iorubá-influenciado do Candomblé — uma diferença que reflete a transmissão por uma linhagem etnolinguística e religiosa própria, a jeje, dentro da diáspora africana no Brasil.
Esta seção apresenta a interpretação de uma tradição específica, não um fato verificável.
Perguntas frequentes
- Nanã é uma orixá iorubá?
- Não exatamente. Suas raízes religiosas específicas estão na tradição fon/dahomeana do antigo Reino do Daomé (atual Benin), transmitida ao Brasil pela nação Jeje do Candomblé — distinta da nação Ketu, de matriz mais iorubá.
- Por que Nanã é considerada a orixá mais velha?
- Na tradição fon de origem, Nana Buluku é uma figura criadora primordial, anterior ao par divino Mawu-Lisa. No Candomblé brasileiro, esse status de ancestralidade se reflete em itans que a colocam como mãe simbólica de outras orixás das águas, como Iemanjá e Oxum, e por vezes de Oxalá e Omolu/Obaluaiê.
- Com qual santo católico Nanã foi sincretizada?
- Com Sant'Ana, avó de Jesus na tradição católica — uma correspondência considerada apropriada dado o papel de anciã e avó atribuído a Nanã no Candomblé.
Fontes
- Pierre Verger. Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo (1981).
- Reginaldo Prandi. Mitologia dos Orixás (2001).
- Roger Bastide. The African Religions of Brazil (1978).
- Toyin Falola, Ann Genova (eds.). Orisa: Yoruba Gods and Spiritual Identity in Africa and the Diaspora (2005).